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Sobre a Cidade do Fundão

FUNDÃO... TERRA DE ALEGRIA

É sempre contingente mergulharmos nas raízes que moldam o universo da vida, percorrermos o território da memória, falarmos da cidade que é a nossa casa comum. Mas olhamos para antigamente e parece-nos ouvir os sinais antiquíssimos de uma terra que gerações e gerações, num esforço colectivo que não poucas vezes assume dimensão épica, foram lentamente transformando, tornando-a mais habitável e feliz. Da aldeia, virada para si mesmo na solidão dos campos, ou da vila que se abriu aos desafios do tempo até se fazer cidade, é um caminhar diverso e plural que descobrimos na identificação de uma terra, que é a nossa, e, por isso, projectamos na história mais ampla que vivemos todos os dias.

É porventura esse desejo de universalismo, que se sobrepõe à realidade imediata, que levou o poeta Miguel Torga a dizer num dos seus versos: Minha aldeia é todo o Mundo.
Será.

Às vezes, viajo com o poeta pelas velhas ruas do meu Fundão e percebo, então, como é bom andarmos por longes terras, frequentarmos grandes metrópoles, vivemos as contradições civilizacionais do gigantismo urbano, para aprendermos a amar a tal casa comum que ainda é capaz de conter nos seus bairros, nas suas árvores, nos rostos do seu povo, a dimensão humana que aponta à utopia da felicidade.

O Fundão. Quando olho a riqueza cromática da Gardunha, nos seus verdes esplendorosos, quando vou ao reencontro das pequenas singularidades da urbe, quando oiço os falares do mercado e vejo a minha gente – gente singular, acrescento - , digo sempre para mim mesmo que às vezes interessa menos ir longe do que amar o que se vê. Aqui, no «coração dos dias». Esta luz que desce do céu e, ao fim da tarde, varre a topografia da cidade, recortando, sempre, como cenário dominante, a Gardunha com o mar de cerejeiras em flor e o seu chão de bosque onde o sol se desfaz em mil transparências, as neves da Estrela lá no alto, ou os campos retalhados de verde da Cova da Beira – eis, meus amigos, a terra da alegria se a alegria tivesse terra!

Caminhemos, pois, com os Caminheiros da Gardunha por este chão nosso e celebremos o que ainda resta da memória dos que vieram antes de nós, para edificar a cidade, esse bem colectivo que, por ser de todos, faz parte da nossa biografia comum e temos a obrigação colectiva de a preservar.
O Fundão é a terra da alegria.

Porque também aqui, como diria o poeta Eugénio de Andrade, as cigarras ainda transformam o seu canto em luz.

Fernando Paulouro Neves

 
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